30 de abril de 2018

Contra a guerra, pelos direitos dos povos oprimidos, pelo socialismo : a revolução proletária mundial!


O DIA 1 ° DE MAIO acontece em um contexto de rivalidades entre as potências imperialistas e múltiplas guerras locais. A rivalidade entre os “velhos”IMPERIALISMOS dos Estados Unidos, do Oeste da Europa,, do Japão com os imperialismos emergentes na China e na Rússia de acentuou de maneira mais clara. Potências regionais (Israel, Arábia saudita, Turquia, Irã) estão em disputa no Oriente Próximo. A Síria, o Iraque, a Coreia, o mar da China, a Ucrânia, o Afeganistão...são o teatro de manobras e de confrontações militares.
Até mesmo a retomada econômica do capitalismo mundial, compartilhada de forma desigual, não acalmou as tensões entre as diferentes frações da burguesia, nem os ataques contra os produtores. O emprego aumenta a nível mundial, mas não suficientemente para enfrentar o crescimento demográfico. Para o imperialismo mundial, uma grande parte da humanidade é supérflua. Por outro lado, o meio ambiente da espécie humana está em perigo devido e pela sobrevivência do capitalismo: aceleração do aquecimento climático, perda da diversidade biológica, rarefação das florestas e da água pura, etc..
Todas as potências imperialistas querem não somente defender seus superlucros contra seus rivais, mas também aumentar esses lucros. Seus Estados tentam fazê-lo atacando os direitos adquiridos por sua classe operária, se unindo e se reunindo em alianças, retomando a carreira armamentista, intervindo econômica, política, diplomática e militarmente no resto do mundo.
A OMC não consegue mais propulsar acordos mundiais. As trocas de mercadorias cessaram de se intensificar ( elas aumentam de agora em diante ao mesmo ritmo que a produção mundial). Porque os EEUU continua a ser a primeira potência mundial, mas que são ameaçados pela emergência da China, o presidente Trump fala abertamente de guerras comerciais que ele quer levar a cabo e ganhar. O protecionismo , que nunca havia desaparecido, retorna com mais força. A Grã Bretanha se retira da União europeia.


A reação política em geral e em toda a linha é própria do imperialismo. *(Lênin, O

imperialismo e o rompimento do (com o) socialismo, dezembro 1916).


Israel nunca se preocupou com uma autorização da ONU para matar palestinos ou para fazer a guerra aos seus vizinhos. Entretanto, os EEUU que fundaram a ONU no dia seguinte depois do fim da 2ª. Guerra Mundial, a contornam com frequência para levar adiante suas agressões militares, pois a China e a Rússia têm o direito de voto no Conselho de Segurança. Assim, o exército americano, ajudado pela França e pela Grã Bretanha, invocando um novo ataque químico, bombardeou a Síria no dia 14 de abril deste ano. Como se os crimes de guerra dessas três potências não fossem piores que os do açougueiro Assad.
Os emigrantes dos países pobres e dos países em guerra são mais do que nunca rejeitados e perseguidos. “Referenduns” (= enquetes populares) decidem sobre a questão (Brexit), candidatos e partidos ganham eleições denunciando os migrantes como bodes expiatórios (EEUU, Áustria, Itália, Hungria...). Muros surgiram ou são reforçados nas fronteiras dos EEUU, de Israel, da Espanha, da Grécia, da Bulgária, da Hungria, da Noruega, da China, da Grã-Bretanha, do Paquistão, do Botswana...
A Turquia, sempre membro da OTAN, de fato uma ditadura islamista, em janeiro deste, conduziu uma invasão militar na Síria para impedir a criação de um Estado curdo em sua fronteira e demonstrar suas pretensões de poder regional. Ele recebeu para isso o apoio dos djihadistas sírios, a autorização da Rússia e dos EEUU, enquanto que os chefes do PKK-YPD tinham colocado os combatentes curdos ao serviço do exército americano. Havendo vencido em Afrine no dia 1 de março, seu governante Erdogan amplia sua guerra suja enviando tropas turcas para invadir o norte do Iraque com CUMPLICIDADE não somente de Washington, mas também do governo de Barzani (PDK) da zona autônoma curda no Iraque.
Ao mesmo tempo, o governo colonialista israelense tem carta branca para uma nova vaga de repressão brutal contra a população palestina. O novo homem forte da Arábia Saudita, o príncipe Bin Salmane, justifica no mesmo momento a existência do Estado de apartheid, enquanto que o se país continua a alimentar o antissemitismo e o salafismo através do mundo, a financiar os movimentos islamo fascistas.
A restauração do capitalismo pelas burocracias stalinistas na Rússia e na China não somente introduziu novas potências imperialistas, mas também mudou o equilíbrio entre as classes, em detrimento dos trabalhadores. No Leste da Europa, na China, no Vietnã, as aquisições em termos de emprego , de saúde, de educação... como resultado do que trouxe a expropriação do capital, desapareceram brutalmente. A perspectiva do socialismo recuou no seio das massas exploradas e oprimidas. As burocracias no poder em Cuba e na Coreia do Norte começaram a se converter ao capitalismo.
Contrariamente ao que pretenderam os ideólogos e os políticos da burguesia imperialista, esse estado de coisas não conduziu ao triunfo da “democracia representativa”.
Os regimes autoritários sobreviveram e as democracias tradicionais rebaixam as liberdades democráticas e espionam as população em nome da “luta contra o terrorismo”. Trump foi eleito com menos vozes que Clinton. Nos EEUU , os negros continuam sendo o alvo dos agentes de polícia brancos. O papel dos serviços secretos e do estado maior é maior do que nunca nos EEUU . A presidente do Brasil eleita pelo sufrágio universal foi destituída em agosto em nome da “luta contra a corrupção” para ser substituída por um presidente do (P)MDB bem mais corrupto. O nacionalismo burguês da Venezuela que manteve o capitalismo se apoia cada vez mais no exército para resistir á fração pro-imperialista. O governo de Rajoy (PP) e a monarquia franquista proibiram, em outubro de 2017 , ao povo da Catalunha escolher democraticamente sua sorte através de um referendum.
Até os países mais avançados, a religião e o criacionismo promoveram frações nas classes dominantes. Os homossexuais continuam a ser perseguidos na maioria dos Estados. Os próprios direitos das mulheres são rediscutidos ou questionados , em particular o direito de abortar nos EEUU, na Polônia, na Hungria.
Mais uma vez, em todo o mundo, bandas fascistas criam o terror nos migrantes, nos grevistas, nos camponeses pobres, nas minorias religiosas ou nacionais (Yezidis, Roms, Rohingyas...). Sem embargo, os trabalhadores, as mulheres, as minorias oprimidas, os jovens em formação resistem de todas as maneiras que podem: petições, greves, manifestações, luta armada...na Síria, na Turquia, na China, no Irã, no Brasil, na Espanha, nos EEUU, na França... A classe operária nicaraguense, ao preço de dezenas de mortos, forçou o governo a retirar seu projeto de reforma da previdência social e das aposentadorias. As lutas de classe não param, mas ao proletariado e aos oprimidos do mundo lhes faltam as organizações necessárias para transformar a aspiração e o compromisso das massas em avanços e vitórias decisivos.
Com efeito, as organizações que atualmente controlam o movimento operário demonstram  ser incapazes de fazer frente ao ascenso da reação, para lutar contra as intervenções imperialistas, para liderar lutas para enfraquecer e derrubar o capitalismo mundial. As burocracias sindicais concordam em negociar todos os ataques. Os partidos ex-estalinistas, socialdemocratas e trabalhistas  governam pelo capitalismo, atacando as conquistas (ou preparando-se para fazê-lo). A DAS está dentro de um dos dois principais partidos burgueses nos Estados Unidos, o Partido Democrata, cujos candidatos (Obama, Clinton) também são apoiados pelo PCUS. O SPD acabou de salvar Merkel, na Alemanha.  O Syriza grego se rendeu às demandas de Berlim e Paris. O SD dinamarquês é aliado com o DF fascistizante e se soma à xenofobia. A SMER eslovaca governa com o SNS racista. O LP da Nova Zelândia governa com o partido xenófobo NZF. Os partidos velhos e novos  “reformistas” que estão na oposição, como o Partido Trabalhista na Grã-Bretanha, Die Linke na Alemanha, a França Insubmissa, Podemos do Estado Espanho... não reivindicam sequer o socialismo.
Nessa situação, é mais importante do que nunca reconstruir a internacional dos trabalhadores (e em cada país um partido operário revolucionário) com base no programa comunista. Em todos os lugares, a vanguarda deve ser agrupada para opor o internacionalismo proletário ao nacionalismo estreito que prega o confronto de alguns trabalhadores contra os outros. O internacionalismo defende o direito das nações oprimidas à autodeterminação, sem necessariamente defender uma separação. Os trabalhadores devem lutar contra qualquer restrição de conquistas políticas e sociais, como a melhor base para a luta por uma democracia verdadeira, isto é, pelo poder dos conselhos operários. Com base na solidariedade de classe do proletariado, que se opõem a divisão entre nacionais e estrangeiros, trabalhadores intelectuais e manuais, entre homens e mulheres, entre jovens e velhos, entre religiões diferentes.
É necessário para evitar o perigo de uma guerra mundial destrutiva, parar a destruição ambiental causada pela lei do máximo lucro capitalista, derrubar a burguesia, desmantelar o Estado burguês, tomar o poder, colocar os meios de produção nas mãos daqueles que, com o seu trabalho, criam a riqueza da sociedade, marchar ao socialismo, fazer desaparecer as fronteiras, as classes e o Estado.

1º de maio de 2018

Coletivo Revolução Permanente (Alemanha, Áustria, Canadá e França)

IKC (Estado Espanhol)

PD (Turquia)

TML (Brasil)


Nota da TML: a primeira parte da tradução foi feita pelo próprio CoReP, sendo que a segunda foi da TML a partir da versão em espanhol.

28 de abril de 2018

Desemprego aumenta e a crise econômica se aprofunda


O desemprego aumenta e a crise econômica se agrava com a piora de todos os índices econômicos, sendo que o dólar está chegando a 4 reais e “a Dívida Líquida Consolidada do Setor Público saltou de 39,2% em maio de 2016, para 52% do PIB em fevereiro de 2018, isto é, a elevação de 32,6% acumulado em 21 meses (ou 1,4% ao mês).”, conforme informação do economista Márcio Pochmann, ao Diário do Centro do Mundo de 24/4.

O desemprego no trimestre de janeiro a março de 2018 aumentou para “13,1%, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com crescimento de 1,3 ponto percentual em relação ao trimestre outubro-dezembro de 2017.” E “A população desocupada nos três primeiros meses do ano chegou a 12,3 milhões de pessoas.” (O Estado de S. Paulo, em seu Editorial, “Perdendo o fôlego”, de 28/4).

O aumento do desemprego assusta aos analistas burgueses, porque era esperada a dispensa dos empregados contratados excepcionalmente para as vendas de natal, o que eles chamam de comportamento sazonal do mercado, todavia as demissões foram bem maiores do que o esperado, a qualidade do emprego continua se deteriorar e vem caindo a renda dos trabalhadores, denunciando o aprofundamento da crise econômica.

“O aumento da taxa de desocupação, maior do que o esperado por analistas do mercado de trabalho, que já levavam em conta o impacto dos fatores sazonais, parece estar ligado à perda do dinamismo da atividade econômica. As  projeções para o desempenho da economia ao longo de 2018 vêm se reduzindo gradualmente nas últimas semanas, em razão das incertezas que caracterizam o cenário político. E os dados sobre emprego divulgados pelo IBGE tendem a, no mínimo, sustentar essas projeções, quando não a estimular previsões mais pessimistas.

Além de seu indicador mais óbvio, que é o aumento da taxa de desocupação, as dificuldades para a recuperação mais vigorosa do mercado de trabalho são visíveis em outros dados da Pnad Contínua. A qualidade do emprego,  por exemplo, continua a se deteriorar. Entre o último trimestre de 2017 e os primeiros três meses  deste ano, foram fechados 408 mil postos de trabalho com carteira assinada, aqueles que oferecem melhores condições para os empregados e geralmente são mais bem remunerados.” (Idem).

“Quanto à renda, os indicadores não são animadores. O rendimento real médio habitual das pessoas ocupadas aferido pela Pnad Contínua no primeiro trimestre deste ano, de R$ 2.169, é exatamente igual ao do período correspondente do ano passado.” (Idem)

Logicamente, tem que se dar um desconto com relação aos índices do IBGE do regime golpista, porque, com certeza, os números reais da economia devem ser ainda piores.

O “Estadão” conclui seu Editorial já sem fôlego, apontando para a piora da crise:

“Sem aumento expressivo de renda, o consumo tende a se estagnar ou crescer pouco, o que afeta o desempenho de outros indicadores da atividade econômica, já influenciados pelo quadro político incerto.”

A crise do capitalismo aumenta de forma brutal, principalmente devido à resistência empírica do movimento popular contra a política de escravidão e recolonização da burguesia e do imperialismo, com a “Reforma Trabalhista”, terceirização, precarização, trabalho infantil e escravo e a tentativa da “Reforma da Previdência”, apesar da política de conciliação e colaboração de classes do PT, PSOL, PCdoB, sendo necessária uma alternativa operária, revolucionária e socialista para derrubar ao regime golpista civil-militar.

As eleições de outubro não abrem nenhuma perspectiva para o movimento operário e popular, porque serão antidemocráticas, fraudadas e possivelmente mais sangrentas do que as municipais de 2016, onde foram assassinadas 26 pessoas e houve 45 atentados. Na verdade, já estão sendo fraudadas há muito tempo com a farsa da Operação Lava Jato, concebida pela CIA,  para condenação e a prisão de Lula e consequente perseguição ao PT e ao conjunto dos lutadores do movimento operário e popular. Elas deverão ser controladas que nem na época da ditadura. Todavia, é fundamental a luta pela libertação de Lula, com a consequente queda da Bastilha de Curitiba.

A alternativa é a ação direta e revolucionária das massas, sem ilusões eleitoreiras e parlamentaristas.

Para tanto, nós da TML defendemos a convocação de um Congresso de base da classe trabalhadora,  em São Paulo, com delegados eleitos nos Estados da federação brasileira, com o objetivo de forjar uma vanguarda operária e revolucionária, superando a colaboração e conciliação de classes das direções burocráticas, pelegas e traidoras, discutindo um programa de lutas contra o desemprego, como, por exemplo, a formação de um Fundo Desemprego, com os trabalhadores empregados contribuindo com 0,5% de seu salário; escala móvel de salários de acordo com os índices do DIEESE; redução da jornada de trabalho, sem redução dos salários, para que todos trabalhem; anulação da “Reforma Trabalhista” e contra a “Reforma da Previdência”; fim da política de encarceramento em massa dos jovens pobres e negros; formação de comitês de autodefesa, as milícias operárias e populares a partir dos sindicatos, na perspectiva do armamento do proletariado, objetivando a construção de um partido operário revolucionário, para a derrubada revolucionária dos golpistas e das instituições do regime burguês.



14 de abril de 2018

Mobilizar contra os ataques imperialistas à Síria


Os Estados Unidos, a Inglaterra e a França atacaram com mísseis à Síria, ontem à noite, sob pretexto de que o país árabe teria utilizado armas químicas. É a velha estória de sempre. Com esse tipo propaganda destruíram o Iraque e a Líbia para roubar petróleo.I

Como nos ensinou Lênin, em sua obra de 1916,  o Imperialismo, fase superior do capitalismo, vivemos a época terminal desse regime de exploração, a época de guerras e revoluções, da reação em toda linha.

Os países árabes, como a Síria, são muito ricos em petróleo, motivo pelo qual os países imperialistas têm interesses na região, tendo inclusive criado o Estado terrorista e sionista de Israel para servir a esses interesses.

Nós, marxistas revolucionários, somos contra os ataques do imperialismo à Síria e defendemos a mobilização contra o imperialismo em nível mundial. Estamos ao lado dos trabalhadores sírios contra os ataques imperialistas, mas sem apoiar a Assad, cujo regime denunciamos como nacionalista burguês, inimigo dos trabalhadores. 

Além disso, denunciamos o imperialismo russo. A Rússia, com a restauração contrarrevolucionária do capitalismo, voltou a ser um país imperialista, como Lênin a caracterizava antes da Revolução de 1917. A antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) desenvolveu as forças produtivas russas, em virtude da lei do valor, a lei da sociedade capitalista, ter sido confrontada pela lei da economia planificada, a lei da sociedade de transição do capitalismo ao socialismo, como nos ensinou o maior economista soviético, Eugênio Preobrajenski. Hoje a Rússia, uma das herdeiras da Revolução de   1917, é um país imperialista poderoso, tanto do ponto de vista econômico como militar. Inclusive, algumas das conquistas da Revolução de 1917 ainda permanecem.

Portanto, apoiamos a luta dos trabalhadores sírios por sua completa independência política e organizativa e defendemos que o proletariado mundial, em especial o norte-americano, inglês, francês, árabe e judeu, mobilizem-se contra o ataque imperialista à Síria.

Assim, no Brasil, defendemos a proposta de que sejam organizadas manifestações e protestos nos consulados e embaixadas dos Estados Unidos, Reino Unido, França e Israel.

- Não aos ataques imperialistas à Síria!

- Tirem as mãos da Síria! 

- Abaixo o imperialismo!

8 de abril de 2018

Convocar um Congresso de base da classe trabalhadora para resistir ao avanço do golpe civil-militar


A prisão de Lula é mais um passo no sentido de estruturação de um Estado policial, um governo ditatorial bonapartista disfarçado como sendo do judiciário, apenas para camuflar a bota militar.

Isso ficou bem claro na votação do habeas corpus impetrado pelos advogados de Lula, quando os próprios ministros do Supremo reconheceram que a nossa Constituição Federal é clara, possuindo como cláusula pétrea, a presunção de inocência, que ninguém poderá ser considerado culpado antes do trânsito em julgado (até quando não haja mais recurso). Inclusive, eles próprios esclareceram que, ao contrário do que a mídia golpista tem divulgado, não é verdade que nos sistemas dos outros países não há o princípio da presunção de inocência como o nosso. Eles próprios esclareceram que a nossa Constituição baseou-se na portuguesa de 1976, promulgada depois da Revolução dos Cravos de 1975 e a Constituição italiana de 1946. Inclusive, mencionaram que o Brasil hoje já é a 3ª população carcerária do mundo com 700.000 presos, sendo que 40% destes são presos provisórios, isto é, sem condenação. E que em breve deve chegar a 1.000.000 e 1.500.000 presos. Em ano de Copa do Mundo, com certeza seremos campeões! Vamos bater fácil os Estados Unidos e a Rússia. E estamos preparados para isso: os golpistas não investem em saúde e educação, apenas constroem prisões, sendo o maior exemplo o Estado de São Paulo.

Assim sendo, o que justifica a votação do Supremo que negou o habeas corpus? Logicamente, os pronunciamentos dos generais da ativa, da reserva, e do alto comando. O Supremo curvou-se sob a bota militar.

Nós, marxista revolucionários, desde 2013 advertimos que, em razão da crise econômica terminal do capitalismo mundial iniciada em 2008, a qual chegou de forma retardatária no Brasil, com a baixa do preços das commodities brasileiras (minérios de ferro, carne, soja, etc.) o imperialismo e a burguesia brasileira pró-imperialista, representada pelo partidos DEM (Democratas – antigo Partido da Frente Liberal, que é a continuidade da Aliança Renovadora Nacional – Arena – o “partido” da ditadura militar) e o PSDB (o Partido da Social Democracia Brasileira) passaram a impulsionar o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff do PT (Partido dos Trabalhadores), porque a partir daquele momento passaram a não admitir mais a política reformista dos programas sociais deste último por considerá-la, a partir daquele momento de crise, insustentável por ser “cara”. 

Assim, a partir do momento que as diversas frações da burguesia a chegaram a um consenso, tanto a pró-imperialista (DEM e PSDB) como a nacional, representada pelo MDB(Movimento Democrático Brasileiro – também um partido que vem desde a ditadura militar), depuseram a presidente Dilma do PT em 2017.

Nós da TML, apontamos que o plano “Uma ponte para o futuro”, apresentado pela burguesia era plano de recolonização e escravidão do Brasil, de entrega das empresas nacionais, como a Petrobrás, do petróleo do Pré-Sal, e das riquezas do País, como a Floresta da Amazônia, o Aquífero Guarani, um ataque sem precedentes às condições de vida dos trabalhadores brasileiros, com a “Reforma Trabalhista” que acabou sendo aprovada, suprimindo todos os direitos dos trabalhadores, no sentido da mais bárbara escravidão, combinada com a “Reforma da Previdência”, que não conseguiram aprovar ainda, reforma essa que pretende acabar com a aposentadoria e os direitos previdenciários.  

Além disso demos o roteiro do filme dos golpistas: depor Dilma do PT, prender Lula, fechar o PT e os partidos políticos de esquerda e atacar o movimento operário e popular e suas entidades sindicais. Ou seja, o plano básico nazi-fascista do imperialismo norte-americano que domina o Brasil, já imposto durante a ditadura militar dos anos 64/85 do Século passado.

Então, a primeira parte do plano foi concluída agora com a prisão de Lula. Até aqui essa parte foi realizada pelo judiciário, o ministério público e a polícia federal golpistas, sob aberta supervisão das Forças Armadas, as quais estão preparando terreno para a última fase do plano golpista, tanto que já entraram em cena com a intervenção militar no Rio de Janeiro, sendo que o resultado inicial mais significativo da mesma foi o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle, do PSOL (Partido do Socialismo e Liberdade).

Agora já se aproxima a data das eleições que, com certeza, não serão realizadas. Caso sejam realizadas serão com apenas os partidos golpistas. Se por acaso os golpistas não se sentirem seguros e deixarem os partidos de esquerda participarem, as eleições serão mais antidemocráticas, violentas e sangrentas que as eleições municipais de 2016, onde aconteceram 45 atentados com 26 mortes. Provavelmente, poderá ser o início da guerra civil que se avizinha.

Assim, para enfrentar o avanço do golpe civil-militar e os ataques dos bandos fascistas, é fundamental que os trabalhadores organizem comitês de autodefesa, ou seja, milícias operárias e populares, a partir dos sindicatos, na perspectiva do armamento do proletariado.

Simultaneamente, há necessidade da Convocação de um Congresso de base da classe trabalhadora em São Paulo, com delegados eleitos nos Estados da federação brasileira, visando organizar e formar uma nova vanguarda, substituindo os burocratas e pelegos dos sindicatos por dirigentes operários e revolucionários, como embrião do poder proletário, superando a política de conciliação e colaboração de classes do PT, do PSOL e PSTU e demais organizações da esquerda pequeno-burguesa, para organizar a resistência ao avanço militar, onde seja, discutindo um programa de luta contra o desemprego, a formação de um Fundo Desemprego com a contribuição de 0,5% dos salários mensais dos trabalhadores empregados, pela escala móvel de salários de acordo com os índices do DIEESE, pela redução da jornada de trabalho sem redução do salário, contra ataques ao programas sociais, pela anulação da reforma trabalhista, contra a “Reforma da Previdência”, e preparação da greve geral por prazo indeterminado por essas reivindicações e pela derrubada dos golpistas.  

- Formar comitês de autodefesa, milícias operárias e populares a partir dos sindicatos!

- Convocar um Congresso de base da classe trabalhadora em São Paulo, com delegados eleitos nos Estados da federação brasileira!

- Preparar e organizar uma greve geral por prazo indeterminado para a derrubada dos golpistas!

6 de abril de 2018

LULA NÃO PODE SE ENTREGAR A REAÇÃO! O PROLETARIADO DEVE RESISTIR A PRISÃO COM A GREVE GERAL! SUPERAR A POLÍTICA DE PARALISIA E COLABORAÇÃO DE CLASSES DA FRENTE POPULAR!


SEXTA-FEIRA, 6 DE ABRIL DE 2018

O Juiz Moro ordenou a prisão de Lula para esta sexta-feira, 06 de abril. Trata-se de uma medida claramente provocativa da “justiça” do capital visando encarcerar o mais rápido possível o dirigente máximo do PT. Neste momento Lula e a direção petista estão no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, com cerca de 3 mil ativistas prestando solidariedade ao ex-presidente. A LBI, que sempre foi uma corrente política que defendeu a oposição operária e revolucionária as gestões de colaboração de classes da Frente Popular, coloca-se neste momento na trincheira da luta direta contra a prisão de Lula pela famigerada Operação “Lava Jato” patrocinada pelo imperialismo ianque. Nossas profundas diferenças políticas e de classe com o PT nos dão toda a moral para defender Lula das garras da reação burguesa sem capitular ao programa de conciliação da direção petista. Defendemos que Lula não pode se entregar a PF e que o proletariado deve resistir nas ruas e através da luta direta a prisão com a organização imediata de uma Greve Geral política contra a escalada reacionária que avança em nosso país. Como Marxistas Revolucionários convocamos o estabelecimento de uma Frente Única de Ação Antifascista construindo unitariamente tarefas concretas para impedir a prisão de Lula: comitês de autodefesa, convocação de paralisação nas fábricas do ABC e nas categorias mais organizadas e o entrincheiramento no Sindicato dos Metalúrgicos para impedir, pela ação dos trabalhadores, o encarceramento do ex-presidente. Apesar de fazermos esse chamado público à CUT e ao PT para agirem firmemente neste momento crucial no sentido de “golpear juntos” sabemos que a Frente Popular não será capaz de responder à altura ao ataque que a burguesia desfere contra Lula. O PT não vai apostar na resistência operária porque teme que a ação das massas saia de seu controle. Lula mesmo na iminência de ser preso aposta no circo eleitoral da democracia dos ricos, ainda que perseguido é um fiel defensor da estabilidade do regime político burguês. Apesar de saber desse caminho suicida que a direção do PT e da CUT adotará é tarefa dos genuínos Trostskistas chamar a resistência para que a própria classe operária e sua vanguarda classista tire concretamente as lições políticas e programáticas da traição covarde da Frente Popular. Jamais a LBI, mesmo militando em todas as gestões petistas como os maiores adversários do PT no campo da esquerda anticapitalista, poderia atuar como o PSTU que aplaude a operação “Lava Jato” e acabou por se tornar um braço auxiliar da direita reacionária em nosso país. Compreendemos que neste momento crucial, como nos ensinou Trotsky, que a melhor forma de fazer evoluir a consciência revolucionária do proletariado é justamente revelando na arena concreta da luta de classes que o PT é incapaz de defender consequentemente seu principal dirigente das garras da justiça burguesa, enquanto os revolucionários Leninistas, sem abrir mão por um minuto sequer da delimitação programática com a Frente Popular, são os mais consequentes defensores da luta contra a reação fascista que hoje ameaça prender Lula mas que amanhã se voltará contra o conjunto do movimento operário!


Nota da TML: publicamos o artigo acima da Liga Bolchevique Internacionalista porque temos acordo com o mesmo. 

4 de abril de 2018

Quem matou Marielle?

Depende de de qual grau de verdade você deseja: os milicianos que estavam no carro, apenas aquele miliciano que puxou o gatilho; Temer e os “golpistas”; ou, ainda, o sistema do capital como um todo.

A execução de Marielle é uma decorrência direta da crise geral em que vive o país. A munição utilizada, as pessoas envolvidas, o “método” da execução, as circunstâncias de sua eleição e de suas denúncias contra os “milicianos”, a forma com se desenrola o post-festum (a política federal cede lugar para a política militar, Temer cancela viagem ao Rio para não ser hostilizado, Rodrigo Maia posa de defensor de uma investigação séria, Pezão fica calado no calabouço do Palácio do Catete, a forma da cobertura jornalística da Globo, do Estadão e da Folha de São Paulo, a reação do PT, do PSOL e do PCB etc.) – tudo se articula muito intimamente com os fundamentos da crise em que estamos engolfados.

Portanto...

... de onde vem a crise?

De novo: qual o grau de verdade desejado? De fato, vem desde abril de 1500, quando Cabral aportou na Bahia. O Estado burguês chegou no Brasil antes que aqui houvesse qualquer burguesia, o capitalismo aqui chegou pelas mãos da burguesia europeia e as nossas classes dominantes desde sempre foram sócias minoritárias na exploração dos trabalhadores.

A forma de exploração da força de trabalho, as instituições político-jurídicas e ideológicas que dela brotam etc. variam com o tempo – segundo as necessidades do capital internacional, predominantemente e, secundariamente, segundo as necessidades das classes dominantes brasileiras. Nessa história, o Estado tem um peso descomunal. Pois, como a mediação política da direta subordinação das classes dominantes locais ao capital internacional, termina sendo importantíssimo na organização da economia. As suas “políticas econômicas” têm um papel central na produção de riqueza. Para citar alguns exemplos: o episódio Delmiro Gouveia no Segundo Império, a política de socialização das perdas na República Velha, os investimentos getulistas na infraestrutura como a Petrobrás e a CSN, os “50 anos em 5” de Jucelino, o financiamento estatal para a entrada das multinacionais no país e para a concentração de terras no período da Ditadura Militar para culminar, no período petista, no assim dito “desenvolvimentismo lulista”.

O estamento burocrático-político

Como resultado desse papel do Estado na economia, desenvolveu-se um estamento burocrático encastoado nas altas esferas estatais e nas altas esferas da política que tem um peso econômico e político que, se varia segundo o período histórico, tem sido sempre muito grande.

O funcionamento desse estamento político-burocrático está, hoje, escancarado. Os casos da Odebrecht e da JBS são típicos. O toma-lá-dá-cá entre esse estamento e o capital privado, milhões em corrupção é a contrapartida da transformação desses empresários de nacionais em “multinacionais” graças aos financiamentos ajeitados pelo estamento burocrático-político. Do “outro lado”, amealha-se a fortuna de milhões do filho de 7 anos de Temer! O pagamento de propinas se tornou tão organizado e racional que a Odebrecht criou até mesmo um departamento para cuidar das mesmas, o famoso “Departamento de Operações Especiais”. Estradas, dormitórios e estádios para as Olimpíadas ou Copa do Mundo, compra de material didático ou de remédios, merenda escolar ou equipamento bélico -- tudo é “azeitado” pelas propinas, pela corrupção.

Hoje, em meio à crise, é possível delimitar os contornos desse estamento político-burocrático até os seus integrantes mais importantes: no Congresso, na ala mais tradicional, temos Cunha, Sarney, Jucá, Temer, os Maia (pai e filho), Moreira Franco, Carlos Marun ao lado dos novos integrantes, Lula, Aécio Neves, Genoíno, José Dirceu, Dilma, Garotinho, Cabral etc.; do lado do Estado, Guido Mantega, Palocci, Paulo Bernardo, Paulo Rabelo de Castro, Almino Fraga, Graça Foster, a alta burocracia do BNDEs, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, dos Fundos de Pensão, do Banco Central etc. Com uma vasta ramificação que passa dos centros decisórios nacionais aos Estados e Municípios.

Essa ramificação se generalizou. Em plena “farra dilmista”, até a liberação do pagamento para as empreiteiras locais da construção das “minha casa, minha vida” em cidades pequenas dependia de pagamento de um “agrado” ao gerente da Caixa Econômica local! A construção da infraestrutura para as Olimpíadas e a Copa do Mundo, programas como “minha casa, minha vida” etc. possibilitaram a esses ramos mais distantes de Brasília acesso a um volume de corrupção que nunca tinham antes visto – exemplar, nesse processo, é o caso do Rio de Janeiro. O poder econômico e político do estamento burocrático-político nunca foi tão forte e ramificado pelo país afora.

Esta situação só se tornaria um problema depois que a crise de 2008. Mas, até lá, não se reclamava nem da corrupção nem da bandalheira”.

A genialidade política de Lula

Desde os últimos anos dos governos FHC, o Brasil foi se tornando um dos mais lucrativos investimentos para o grande capital. Com um governo “confiável”, uma classe operária “dócil”, uma vasta força de trabalho desempregada e submetida a uma elevada taxa de exploração e, além disso, com matérias-primas baratas e abundantes, energia subsidiada pelo Estado, terras virgens ainda a serem ocupadas etc. – com tudo isso o Brasil se converteu em um dos investimentos preferidos do grande capital financeiro.

A entrada desses capitais fez a festa dos governos petistas. Eram os anos em que planejavam permanecer no poder até 2028 (Lembram-se do plano? Depois de um governo Dilma, mais dois governos Lula?). Foi o apogeu do “desenvolvimentismo petista”: estradas, casas, usinas hidroelétricas, biocombustíveis, pré-sal, etc. Com duas consequências. A primeira, o apoio incondicional da parcela da burguesia que se locupletava (os Odebrechts da vida) e, a segunda, a adesão ao bloco petista da parte majoritária e mais forte do estamento político-burocrático que mencionamos acima. As propinas que as inversões do Estado propiciavam comprariam a adesão desse estamento aos petistas. Cunha, Temer, Renã Calheiros, Jucá, Sarney, os Maia (do Rio), Collor etc. passam a descobrir as virtudes dos petistas. (Tal como hoje Paulo Paim, deputado federal pelo PT, reconhece hoje os méritos de Collor).

O restante da burguesia, ainda que não diretamente favorecida pelos investimentos estatais, também apoiava o governo petista, por duas razões. A primeira, porque o aquecimento da economia também aquecia seus negócios. A segunda, porque isenções e mais isenções de impostos impulsionavam indústrias chaves, como a automobilística e a da “linha branca” (geladeiras, fogões etc.), a extração de minérios e a exportação de matérias-primas e assim por diante.

Como bem-vindo efeito colateral desse toma-lá-da-cá, o aquecimento da economia gerava empregos e melhorava a sorte de setores significativos da classe média. O bolsa família e programas congêneres davam a impressão – falsa impressão – de uma distribuição de rendas. O aumento dos salários dos professores universitários comprou o silêncio, quando não o apoio entusiasta, desse importante setor “formador de opinião pública”, etc., etc.

Foi assim que Lula se tornou o preferido de Obama, do conjunto do capital, do agronegócio e do conjunto dos trabalhadores. Era uma unanimidade nacional! Como duvidar que esse “simples operário” fosse, de fato, um “gênio da política”, um “estadista de porte internacional”?

Foi nesse clima de “felicidade geral” que os petistas acrescentaram ao estamento político-burocrático uma sua contribuição específica: a burocracia sindical. A aristocracia operária, base social e política da burocracia sindical, passou a ser sócia minoritaríssima na repartição corrupção. Milhares de cargos para sindicalistas foram criados no Estado, os fundos de pensão passaram a ter nos sindicalistas diretores e dirigentes de peso, foi retirada a fiscalização do TCU das contas das centrais sindicais e, então, a farra sindical com dinheiro do Estado se tornou oficial.

Tudo parecia indicar que a estratégia petista daria certo: nada ameaçava a permanência de Lula em Brasília por mais tempo que Getúlio Vargas no Catete.

A crise de 2008 pôs tudo a perder.

Ao se instalar a crise, era notório que terminara a fartura de recursos do período imediatamente anterior. Quem pagaria pela crise?

Não dava mais para agradar a todos, alguém tinha que perder. A pressão subiu entre as camadas dirigentes.

A parcela da burguesia que não se reproduz “mamando nas tetas do Estado”, como diz Gaspari, passou a precisar do “apoio do Estado” para atravessar a crise. Tinha, para isso, que diminur a parcela da riqueza abocanhada pelo estamento político-burocrático (os números não são seguros, mas fala-se que 46% do todos dos investimentos no país vinham do Estado e geravam propinas; alguns cálculos indicam que R$ 600 milhões passam diariamente às mãos do estamento político-burocrata via corrupção).

Frente à crescente pressão e avaliando equivocadamente que a crise seria passageira, os petistas cometeram seu maior erro estratégico. Decidiram privilegiar aqueles aliados que, julgavam, seriam os mais fiéis, pois mais dependentes do Estado. O estamento político-burocrático, evidentemente. Em seguida, os setores da burguesia mais dependentes das encomendas estatais (as grandes empreiteiras, a construção civil, uma parte do agrobusiness e o capital interessado nos grandes eventos). E, por fim, da burocracia sindical, a CUT e a central do PC do B. Avaliavam que, com esse “arco de alianças” garantiriam apoio suficiente no Congresso e entre o empresariado para sobreviver à crise – que, repetimos, na avaliação deles, seria curta. Foi assim que Temer virou vice-presidente.

Erro mortal! Deixaram fora do poder todo o restante do grande capital. Metalurgia, eletro-eletrônica, papel e celuloso, química, automobilística etc. etc. – ou seja, praticamente todo o grande capital industrial – mais a maior parte dos bancos, do comércio e uma parte do agrobusiness. A estratégia petista formou contra ela “um arco de alianças” impossível de ser derrotado. O fim do petismo era questão de tempo.

Intensificaram-se as denúncias de corrupção, a Lava a Jato entrou em ação com o apoio dos órgãos de imprensa mais importantes; Moro se tornou personalidade internacional e vários dos operadores chaves do estamento político-burocrático e vários dos empresários do integrantes do “bloco petista” foram para a cadeia. A Fiesp, a Febrabam, uma enorme quantidade de entidades patronais, entraram agressivamente em campo. Publicaram manifestos e manifestos contra o governo, organizaram manifestações, conspiraram o quanto podem. A luta era pra valer entre estes setores da burguesia e o estamento político-burocrárico.

Foi para desmontar o esquema articulado a partir do Planalto que veio o impeachment da Dilma. As “pedaladas fiscais” foram só o pretexto: o PT se tornara um elo decisivo da corrupção que concentrava os recursos no Estado no estamento político-burocrático e nos setores do capital eleitos pelos petistas como seus aliados preferenciais.

O desenvolvimento da crise política a partir de então foi marcado pela dissolução do “bloco petista” no poder. Os primeiros a abandonar o barco foram os “donos do Congresso”. Velhas raposas, burocratas e políticos de décadas, que conhecem as mazelas e os meandros do poder estatal, perceberam que era melhor negociar com o grande capital do que enfrentá-lo. Mas negociar a partir de uma posição de força, visando a sobrevivência do estamento político-burocrático. Temer, aliado de Cunha, ungido vice-presidente por Lula para “garantir” o apoio do Congresso, entrega a cabeça de Dilma para o grande capital.

Logo foram os “companheiros” da CUT e dos sindicatos que mostraram o quanto vale sua lealdade.

Fizeram manifestações contra o impeachment na medida exata para que não fossem acusados de “cúmplices” dos “gopistas” e, também na medida exata para que as manifestações não inviabilizem o impeachment da “companheira Dilma” (do mesmo modo como têm feito manifestações “contra” a reforma trabalhista e “contra” a reforma da previdência, em nossos dias).

Sobrou para o PT o apoio do MST apelegado e das pesquisas de opinião pública que colocam Lula como o favorito para as eleições deste ano.

A disputa no interior do estamento político-burocrático também se acentuou. Temer teve que pagar literalmente bilhões para os congressistas não entregarem sua cabeça à justiça. Alguns setores vão perdendo a disputa (por exemplo, a “sucursal” do Rio de Janeiro do esquema das propinas), mas quem é mais rapidamente expulso da festa é a burocracia sindical que, lembremos, foi trazida ao “poder” pelos petistas. A reforma sindical inclui o fim do imposto sindical e fala-se no retorno da fiscalização do TCU sobre as verbas transferidas às centrais sindicais pelo Estado.

A burocracia sindical sente o golpe e passa a negociar: promete se comportar não agitando as massas contra o impeachment da Dilma e, depois contra as reformas trabalhista e previdenciária. Topa perder, desde que não “em demasia”. Com isso dá um tiro em seu próprio pé: sem o apoio das massas nas ruas contra as reformas, também não tem força para negociar o que gostaria. Perde o imposto sindical não apesar, mas porque se “comportou” na defesa dos trabalhadores.


A “ofensiva” de Temer

Acuado, o estamento político-burocrático fez valer seu peso histórico.

Através de manobras e contramanobras, de vai-e-vens, de alianças e traições, de delações premiadas e morte de testemunhas, de compras de falso testemunhos e esquemas milionários, como o de Cunha, para manter peças chaves de boca fechada, etc., o estamento burocrático-político se reorganizou sob Temer e Rodrigo Maia (presidente da Câmara dos Deputados). Então, fez perceber aos do bloco “da oposição” que a única alternativa é a negociação.

Eles aceitam rifar o governo petista, através do impeachment da Dilma; topam reduzir o nível da corrupção (isto é, a parcela da riqueza nacional que fica com eles); topam aprovar no Congresso legislações impopulares -- desde que não seja colocado em risco a sua própria sobrevivência. Aceitam até mesmo que alguns dos seus sejam presos (Cunha, Garotinho, Cabral etc.) desde que a estrutura de poder ao redor de Cunha, Temer, Maia, Jucá, etc. se mantenha mais ou menos intacta. Vão vendendo caro cada reforma que o capital necessita: desde a flexibilização da entrada de capital estrangeiro na Petrobrás e nos campos do pré-sal, no início do governo Temer, até a reforma trabalhista do ano passado.

A resistência do estamento político-burocrático teve efeito e, em alguns poucos meses, o grande capital começou a mudar a sua postura.

Logo após o impeachment da Dilma, discutia-se abertamente se não seria o caso de se botar Temer abaixo, também. Jornais como o Estadão e a Folha eram claramente simpáticos a essa tese. A resistência do estamento político-burocrático os fez enxergar a realidade: a não ser por um golpe, não havia como se livrar do Congresso tal como ele é hoje. As tentativas de impeachment do Temer não dão em nada, ele resiste às pressões... O Estadão é o primeiro a mudar de posição: se Temer é ruim, a alternativa de um golpe é ainda pior. Logo em seguida, o Estadão começou a defender a limitação da Lava a Jato e, num momento posterior, passa a atacar o judiciário no que este tem de calcanhar de Aquiles: os salários e privilégios. O mote do Estadão passa a ser: não é possível jogar todos os políticos nas prisões de Curitiba, isto seria ir longe demais. Há que se colocar um limite!


Foi então que estamento burocrático-político colheu sua maior vitória: todas as pressões do grande capital “de oposição” para que o Congresso aprovasse a reforma da previdência, fracassam! Os políticos e burocratas estão mostrando sua força e, a burguesia, arrega! Não se fala mais, então, em derrubar Temer, mas discute-se qual o candidato a substituí-lo a partir de 2019. Há, de fato, parece reconhecer o grande capital “da oposição”, que negociar com o estamento político-burocrático, derrotá-lo não seria possível.


A intervenção no Rio de Janeiro

Sentindo-se fortalecido , Temer decidiu passar à iniciativa. Promoveu a intervenção no Rio e se declarou candidato à eleição presidencial. Do alto de seus 90% de rejeição, sabe que o decisivo para as eleições não é o apoio popular. A intervenção, como disse alguém, foi um “golpe de mestre”. Temer posou de sheriff nacional contra o crime e trouxe para o seu lado o prestígio e o apoio da burocracia fardada. Como parte do acordo com os militares, Temer entregou a eles diversos cargos importantes no governo, inclusive o Ministério da Defesa, desde 1988 ocupado sempre por um civil.

A situação no Rio de Janeiro é apenas mais grave e aguda do que a situação no restante do país. Está longe de ser uma situação única e exclusiva. Desde há muito o poder do crime organizado e desorganizado constitui um dos importantes fatores da “governabilidade”: sem um acordo com o crime, não apenas o controle da violência, mas o controle do próprio crime torna-se inimaginável. Nem a Ditadura Militar conseguiu quebrar a força do jogo do bicho. De lá para cá, com as drogas e o comércio de armas, a situação apenas se agravou.

Ao longo dos anos foi sendo construindo um modo de convivência: dentro de limites e em áreas geográficas delimitadas, o tráfico de drogas e armas, prostituição e jogo do bicho são permitidos pelos governantes. Mas a lógica não se interrompe aí.

Tal como o estamento político-burocrático que, a partir de seu poder no Estado, cobra sua taxa de corrupção, os policiais também cobram dos criminosos sua “caixinha”. Esta última nada mais é que a versão pobre do esquema de corrupção administrado pelos Temers e Cunhas da vida. Há dados que indicam que a “caixinha” era, há alguns anos, quase o dobro do total que o Estado do Rio de Janeiro então pagava de salários aos policiais.

Além disso, o capital envolvido nas drogas e armas precisa ser “lavado”: a conivência, se não a

participação ativa, das altas autoridades da segurança e, por extensão, dos governos estaduais e municipais, é um pressuposto indispensável para esta lavagem. A qual, ainda, interessa a uma enorme quantidade de doleiros e alguns grandes banqueiros. Essa enorme base social – traficantes, policiais, burocratas de todos os escalões do Estado, banqueiros, doleiros e, não nos esqueçamos, de juízes e procuradores – possuem uma força de pressão considerável sobre os governos cariocas os quais, por sua vez, não se fazem de rogados em ceder a estas pressões desde que, claro, recebam sua parte do butim.

Esse esquema estadual apenas pode se manter com uma articulação com o esquema nacional. Os no poder em Brasília devem receber “o seu” para não apoiarem as forças de “oposição” no Estado, por sua vez os “de Brasília” devem, pela alocação das verbas federais, abrir oportunidades para que o estamento político-burocrático nos Estados se locuplete com a corrupção decorrente. O Pan-Americano e as Olimpíadas que não me deixem mentir. Garotinho e Cabral são apenas os casos mais emblemáticos dessa articulação entre a corrupção federal, a corrupção carioca, os traficantes e os milicianos.

Esse esquema se equilibrava precariamente, mas se equilibrava, até há alguns anos atrás. Havia momentos de maior tensão e violência intermediado por outros de pacificação aparente. Mas nada semelhante ao que hoje vivemos no Rio de Janeiro. A crise econômica e o agravamento das tensões sociais é o pano de fundo desta explosão. A desarticulação do bloco petista no poder, as disputas no interior da burguesia e do estamento político-burocrático, a Lava a Jato e suas consequências etc. são fatores que também contribuíram para romper o antigo equilíbrio.

A causa imediata e direta desta explosão é a disputa entre os milicianos e os traficantes pelo controle de áreas inteiras da cidade. Em poucas palavras, grupos de policiais descobriram que podiam disputar com os traficantes o controle de áreas de periferia da cidade. Tal como os traficantes, a partir deste controle eles vendem serviços à população, vendem “segurança” acima de tudo e, ainda, podem cobrar pedágio dos traficantes para que “operem” nas áreas sob seu controle. Essa é uma atividade muito mais lucrativa que simplesmente a tradicional “caixinha”.

Além do conflito entre policiais e traficantes, agora surge um novo, mais agudo e violento conflito, entre os milicianos e os traficantes. Diferente do confronto policiais-traficantes, temos agora um conflito entre dois grupos armados ilegais e semiclandestinos: um conflito para além do Estado. As UPPs serviram de fachada legal para o estabelecimento das milícias – e não passaram muito disto.

A intervenção tem uma direção precisa: trata-se de combater o crime organizado e não as milícias. A corrupção entre as forças de repressão, desde juízes e procuradores até o policial mais modesto, não será alvo da ação das Forças Armadas. Afinal, direta ou indiretamente, eles são sócios e aliados do esquema de corrupção que articula, em infinitos canais, a podridão de Brasília com a violência nas periferias das grandes cidades.

Foi a intervenção que criou as condições para a execução de Marielle Franco.

A execução

No ambiente social do Rio de Janeiro, não há mais lugar para o meio-termo. Não por uma questão de radicalização das opiniões, mas pela radicalização da situação real. No conflito entre milicianos e traficantes, quem apoia os direitos humanos está ao lado dos traficantes contra os “de bem”, como os milicianos se autodenominam. E isto independente do desejo ou da inclinação das pessoas, tem um elevado grau de veracidade. Quem milita em uma favela como a Maré sabe muito bem que não é possível uma atuação qualquer sem a anuência do chefe do pedaço, traficante ou miliciano. Não é improvável que a vereadora do PSOL tenha recebido, sem que tenha solicitado ou que tenha negociado, o apoio eleitoral do tráfico da Maré. E, a bem da verdade, seja lembrado que a maior parte de seus votos veio das regiões mais ricas da cidade e, não, das favelas.

Com a intervenção, os milicianos entenderam o recado: é a oportunidade para ocupar as áreas que o Exército vai tomando do crime organizado, é o momento de se expandirem e, por isso, é também a hora de calar quem denuncia a expansão dos milicianos e as suas consequências. Os democratas e defensores dos direitos humanos não são apenas adversários ideológicos, são também aqueles que “atrapalham os negócios”. É, hora, além disso de acertar velhas contas.

Quem executou Marielle? Temer com sua intervenção, pra começo de conversa. Mas só para começo, pois o fundo do poço é muito mais em baixo. Não é por acaso que, mais de 10 dias depois, apenas se sabe que vieram da Polícia Federal as balas do crime. E nada mais!

Enquanto isso...

Enquanto isso, o “arco de alianças” na nossa pobre esquerda eleitoreira nada mais faz do que clamar por uma melhor a mais justa administração do único Estado que o capital pode nos oferecer neste país.

Para essa esquerda, a solução não está em superar o capital, mas em administrá-lo com maior eficiência e justiça: elejam a nós que tudo isso será resolvido. Do PSOL ao PCB, do PC do B ao PSTU, do MST ao MTST, o clamor é um só: nos elejam!

Pobre essa esquerda que não consegue – nem nessas circunstâncias – ir além do horizonte eleitoreiro burguês. Mas há, para isso, uma razão de fundo: são também, ou gostariam de ser, financiados pelas verbas estatais. As mesmas verbas que servem à corrupção e, em outras mãos, executaram Marielle. Bem pesadas as coisas, são apenas a ala esquerda do Partido da Ordem – se é que o Partido da Ordem tem uma ala esquerda.

Prof. Dr. Sérgio Afrânio Lessa Filho


"Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (1987), mestrado em Pós Graduação Em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1990) e doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (1994). Atualmente é Professor Associado da Universidade Federal de Alagoas, e membro da comissão editorial da revista Crítica Marxista (São Paulo). Tem experiência na área de Serviço Social, com ênfase em Fundamentos do Serviço Social, atuando principalmente nos seguintes temas: Lukács, ontologia, marxismo, trabalho e Marx."

Nota da TML: o texto acima constitui-se numa profunda análise da atual conjuntura política brasileira, motivo pelo qual reproduzimos essa contribuição para que nossos camaradas e simpatizantes possam estudar e discutir, visando uma maior clareza para uma atuação teórica e prática marxista e revolucionária.  Consignamos aqui os nossos sinceros agradecimentos ao Prof. Sérgio Lessa pela referida contribuição e ao camarada Antônio Roberto Caldeira Bergocci pela cooperação.