quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Polêmica: a questão do Partido

O movimento pela formação de uma tendência socialista operária revolucionária do PT publica abaixo um texto muito interessante do Professor Gílber Martins Duarte, de Uberlândia, ressalvando a discordância com relação à crítica ao entendimento do revolucionário russo  Leon Trotski de que “A crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária.”, crítica essa também feita por gramscianos que dizem que a interpretação trotskista é reducionista porque a crise histórica envolve questões mais abrangentes, ou seja, políticas, econômicas e sociais.  Todavia, com todo o respeito e admiração que temos pelo Professor Gílber por ser um grande companheiro combativo e defensor do socialismo, fraternalmente, entendemos que essa posição é equivocada, ou seja, essa posição é que é idealista e menchevique, porque no fundo ela reflete a resistência à construção do partido operário marxista revolucionário, centralizado e democrático.   A citação de Trotsky deve ser entendida dentro do contexto em que foi expressa, no início do Programa de Transição, onde o grande revolucionário russo fez uma análise concreta da situação concreta, ou seja, uma análise materialista dialética a respeito d“As condições objetivas necessárias para a revolução socialista.” Para maior clareza e para contribuir na polêmica transcrevemos o último parágrafo desse, vamos dizer assim, preâmbulo:

“Todo falatório, segundo o qual, as condições históricas não estariam “maduras” para o socialismo, são apenas produto da ignorância ou de um engano consciente. As premissas objetivas necessárias para a revolução proletária não estão somente maduras: elas começam a apodrecer. Sem a vitória da revolução socialista no próximo período, toda a humanidade está ameaçada de ser conduzida a uma catástrofe. Tudo depende agora do proletariado, ou seja, antes de mais nada, de sua vanguarda revolucionária. A crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária."

Conjuntura nacional: a batalha encarniçada da reprodução/transformação das relações de produção!
Publicado em 2 de setembro de 2015por socialistalivre

Pensando-se que na luta de classes trava-se a batalha encarniçada entre a“reprodução/transformação das relações de produção”, como bem pontuara o marxista francês Louis Althusser, é assim que precisamos ver a conjuntura atual da luta de classes brasileira.

Setores abstracionistas de esquerda não enxergam a luta de classes real e sonham com um terceiro campo na luta de classes brasileira atual, mas esse terceiro campo não existe na luta real. Esses setores abstracionistas, ditos de esquerda, continuarão nanicos achando que a culpa de seus trágicos destinos míopes é do governismo. Não é. A culpa é de seus idealismos.

A luta de classes real, concreta, é que determina a consciência, não é a subjetividade idealista dos que se auto-intitulam revolucionários. Essa crença que acha que a culpa dos fracassos revolucionários é um problema de direção revolucionária é uma crença ultraesquerdista idealista, introduzida por León Trotsky no movimento operário e que enfraquece muita a luta da classe trabalhadora mundial, em suas batalhas concretas contra os senhores do capitalismo. Serve tão somente para criar divisionismos e pretensos iluminados, longes, distantes da luta de classes real.

Mas a luta de classes é desaforada, dá de ombros para os idealistas e eles, os idealistas, sempre perdem, quando não se movem com a luta de classes real, quando não travam as batalhas concretas que se dão entre a reprodução/transformação das relações de produção. Por que perdem? Porque comumente tais setores entregam sem luta o poder para a direita reacionária, para os fascistas. É o caso de PSTU, PCB, e setores do PSOL no Brasil, ao não lutarem contra o golpismo de direita no país, anunciando idealistamente que irão forjar um terceiro campo na luta de classes brasileira, mas, no fundo, tão somente servem de quinta coluna da direita golpista reacionária, que é quem deve assumir o poder no país, caso o governo petista caia.

O que existe então, a partir da luta de classes concreta que trava a reprodução/transformação das relações de produção, do ponto de vista da crise política atual em que setores direitistas golpistas não querem aceitar que o Brasil seja dirigido pelo PT? Existe uma feroz batalha para que o capitalismo brasileiro em crise se reproduza às custas de uma brutal exploração da força de trabalho e a classe burguesa e seus asseclas que assim o desejam não aceitam que o capitalismo em crise penda sua balança para que de alguma forma salve as mínimas condições de vida do povo trabalhador.

A grande contradição é que mesmo o PT sendo um partido de colaboração de classes, ou seja, um partido que não rompe em definitivo com a reprodução das relações de produção do capitalismo, contudo, o PT sinaliza para que haja algumas transformações nas relações de produção, o que é inadmissível do ponto de vista da burguesia e da pequena-burguesia capitalista reacionária em crise, e faz com que a luta de classes brasileira se acirre.

O Estado deve gastar com o povo trabalhador ou não deve gastar com o povo? O Estado deve cobrar impostos para beneficiar o povo trabalhador ou não deve cobrar impostos? Vejam que a direita golpista é clara: não quer que o PT gaste com o povo, não quer que o PT cobre impostos para investir no povo trabalhador. Por quê? Porque o PT sinaliza para algumas transformações das relações de produção por dentro do Estado capitalista que governa e isso atrapalha os lucros da classe dominante. Enquanto as empresas automobilísticas pregam a demissão sumária dos trabalhadores para voltarem a ter lucro, o PT, com sua estratégia de colaboração de classes, utiliza-se do Estado para tentar suavizar as relações de produção, propondo reduzir a jornada e o salário para que todos continuem trabalhando, isto é, propõe manter o exército operário de pé economicamente, mesmo com perdas financeiras para o coletivo dos trabalhadores, sendo um empecilho no projeto das empresas. Um governo direitista do PSDB, por exemplo, sonho de consumo dos coxinhas, jamais faria essas intervenções estatais.

O PT, através da arrecadação de impostos estatais, garante programas de renda mínima que, de algum modo, impede que a classe média reacionária ou mesmo os ricos pratiquem o trabalho escravo que outrora praticavam sobre vastos setores famintos da população desempregada, ou seja, praticavam nas relações de produção o famoso “trabalho em troca da boia”, isto é, trabalho em troca de um prato de comida. Com o governo do PT, por exemplo, as domésticas tiveram direitos trabalhistas reconhecidos em lei, quando antes eram meras prestadoras de serviço sem benefício trabalhista algum. O PT, mesmo sendo uma merreca, tem garantido reajuste anual do salário mínimo que também de alguma forma faz com que a escravidão trabalhista não seja possível, pois uma família, com um de seus membros trabalhando, pelo menos se alimenta e não vai se submeter a uma exploração brutal de mais-valia (trabalho não pago) nas empresas e microempresas dos capitalistas em crise econômica, em condições de semiescravidão.

Essa é a luta de classes concreta, a batalha reprodução/transformação das relações de produção que tem se travado nos porões das relações trabalhistas brasileiras, o que tem gerado ódio por parte dos setores exploradores reacionários. Essa é a luta de classes real que pariu o GOLPISMO direitista atual. Não é uma luta entre frações da burguesia que pariu o GOLPISMO reacionário atual. Mais uma vez não entende nada de luta de classes real, quem pensa que impeachment versus não impeachment é uma luta entre frações da burguesia. É luta de classes, é batalha entre reprodução/transformação das relações de produção.
Outros exemplos, os programas de habitação do PT também tem esfriado o mercado de aluguel de imóveis, reduzindo a exploração imobiliária por parte de setores da classe média proprietária de imóveis, o que explica também o ódio de dada classe média para com o PT. Enfim, a luta de classes real no Brasil atual não se trava entre revolução e reprodução do capitalismo como analisam os ultra-esquerdistas que falam em criação de um terceiro campo na luta de classes. Luta de classes não se inventa, não se cria por um partido x ou y, ela, a luta de classes, existe, é concreta, está na batalha da reprodução/transformação das relações de produção.

A possibilidade da revolução está contida na reprodução do capitalismo e suas contradições, no sentido da luta por transformações que podem até chegar a uma revolução, mas a revolução não é uma ideia que existe de fora, de forma idealista, dirigindo e determinando a luta de classes, esse é o sonho quimérico das seitas ultraesquerdistas idealistas que não vivem na luta de classes real. O que há de concreto no mundo é uma batalha mortal entre reprodução/transformação das relações de produção em curso nos porões da luta de classe brasileira e mundial e essa luta não terá fim vencendo o golpismo de direita ou vencendo os setores progressistas da classe operária, conseguindo imprimir que transformações continuem ocorrendo. A luta de classes não termina, enquanto houver transformações a serem feitas no todo social, é um devir histórico que vive na contradição permanente.

O PT morreu enquanto ator da luta de classes brasileira atual? Não. Apesar de alguns dirigentes, que se acham os únicos revolucionários, acharem que o PT morreu enquanto ator da luta de classes real, enganam-se redondamente. Podemos dizer que o PT, agora, muito mais do que antes, está no olho do furacão da luta de classes. Seu grande teste de vida ou morte está nessa conjuntura atual que se defronta com o golpismo da direita reacionária. O PT somente morrerá na luta de classes brasileira se perder o seu potencial de promover transformações nas relações de produção concretas, promovendo mudanças na vida do povo trabalhador explorado. Esse é o desafio que se impõe aos dirigentes do PT atual. Se apenas reproduzirem o capitalismo em troca de seguirem na frente do Estado, entrarão para a tumba da História, se souberem resistir à burguesia golpista e seguirem fazendo transformações na vida do povo trabalhador, o PT ainda seguirá vivo como agente da luta de classes real.

Portanto, lutar contra o golpismo de direita e lutar para que continue havendo transformações nas relações de produção é o grande movimento que a classe trabalhadora brasileira precisa travar hoje, aqui e agora. Se é o PT que está à frente do governo, pouco importa. Na luta de classes real, ou a classe trabalhadora ganha ou a classe trabalhadora perde. Queremos que a classe trabalhadora siga lutando por transformações das relações de produção, é assim que podemos quiçá um dia chegar ao socialismo. O mais, em se tratando de luta de classes real, é fantasia. Ou namoro sem vergonha com a direita golpista.

Por: Gílber Martins Duarte – Militante SOCIALISTA LIVRE – Sind-UTE/Uberlândia/MG – Doutor em Análise do Discurso/UFU – Professor da Rede Estadual de Minas Gerais –EDITOR DO BLOG www.socialistalivre.wordpress.com

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